terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Naqueles momentos ela sentia o quanto valiam a pena esses instantes de nada.
Esses nadismos que enfeitam a nossa vida de coisa nenhuma e fazem bonitezas sem pretensão!
Quando por um acaso ouvia uma palavra torta ou via um olhar atrapalhado ou percebia o silêncio entre pensamentos desencontrados ou imaginava qualquer outro gesto ou sinal deste ou daquele ou de si própria ou isto ou aquilo ou qualquer coisa de coisa nenhuma, pronto! Bastava uma faísca pra brotar como cachoeira o riso desinibido!
Ah, as crises de riso nos momentos inoportunos...
Um rir de nada incontrolavelmente, sem pecado e sem perdão!
E sem folego até!
Saborear essas alegrias inúteis...  Ela sabia o quanto valiam a pena esses instantes de nada.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Eu não gosto de quem se preocupa com trocados, eu não gosto de quem conta folhas gastas ou de quem abre mão do que é bom por uma economia porca.
Eu não gosto de quem controla os movimentos, de quem controla as impressões, de quem fiscaliza com mero intuito repressor de condutas indesejadas e de quem não abre mão para o outro não ir embora.
Eu não gosto de quem não faz questão ou de quem faz tipo quando precisa. Eu não gosto de quem faz tipo.
Eu não gosto de quem só quer um ouvinte, eu não gosto de quem só tem problemas e não gosto de quem acha tudo bom e bonito. 
Eu não gosto de dores crônicas, de infelizes crônicos, de desafortunados crônicos e de quem não supera o fim da relação dos outros.
Eu não gosto de quem pergunta e não ouve a resposta.
Eu não gosto de quem nunca tem tempo, eu não gosto de quem nunca tem telefone, eu não gosto de quem nunca tem roupa, eu não gosto de quem nunca tem folga.
Eu não gosto de quem chega sempre cedo, eu não gosto de quem está sempre preparado, eu não gosto de quem acha que é o rei da manipulação.
Eu não gosto de quem não topa programa de índio com os amigos e nem de amigos que só chamam pra programa de índio.
Eu não gosto de quem frustra expectativas, eu não gosto de quem falta no dia do amigo oculto.
Eu não gosto de quem ama só o que já passou, eu não gosto de quem só planeja o futuro, eu não gosto de quem vive só o presente.
Eu não gosto de quem abraça quem não gosta da mesma forma que abraça quem gosta. Abraços servem para aconchegar quem é especial!
Eu não gosto de quem confidencia segredos com quem não tem intimidade.
Eu não gosto de quem acha que nunca está bom, eu não gosto de quem acha que está sempre bom, eu não gosto de quem não acha nada.
Eu não gosto de quem não arrisca, nem tampouco de quem não transmite segurança a quem está próximo.
Eu não gosto de quem fala suave, eu não gosto de quem só enxerga o que consegue ver, eu não gosto de quem acha que o governo está sempre certo.
Eu não gosto de quem age como se não se importasse, eu não gosto de quem fala para despejar hipocrisia, eu não gosto de quem diz que não sofreria se estivesse no lugar de quem está sofrendo.
Por um minuto (ou dois) eu não gosto de quem eu gosto quando eles fazem certas coisas.
E não me gosto quando eu faço qualquer destas coisas.
E isso é só isso. Não significa mais nada. Não altera nada. Não piora em nada o que está ruim. O não gostar é tão transitório e superficial... é uma coisinha!
E apesar de isso não significar em hipótese alguma que eu escolha viver com o que eu não gosto, eu gosto de não gostar.
O não gostar eventual é o que mantém o gostar contínuo mais atraente.
E a vida segue, e a gente vai levando...

sábado, 19 de novembro de 2011

Flor

Ela floria aqui, ali e acolá. Tinha cores e texturas e cheiros lindos. Ela era do tipo que cheira bonito e fala bonito e sente bonito.
Despistadamente e sutilmente e levemente deixava vez ou outra cair algumas sementes nos terrenos áridos por onde passava. Porque ela também era do tipo que plantava.
Ela vivia no tempo dela.
A modernidade e suas imperfeições sociais lhe tornavam uma pessoa um tanto quanto desambientada em certos momentos, mas ela se sobrepunha a isso sem fazer muito esforço. Possuía um sorriso sincero e sempre livre a quem se aproximasse, o que conquistava de pronto os mais abertos.
Ela era gênero.
As várias espécies tinham cada uma suas próprias características, mas quaisquer que fossem, estavam presas no gênero, que absoluto, continha todas elas. Texturas das mais aveludadas às mais ásperas podiam conviver ali dentro, podia sem contradição possuir cada característica, por mais antônima que fosse, e isso não lhe pareceria estranho ou incomum, porque ela era gênero.
De mais a mais, de tempos em tempos, gostava que observassem a sua expressão da beleza, e por puro exibicionismo, vestia-se de pétalas, escolhidas a dedo, e pontilhadas de brilhantes. Lembrava-me do orvalho que encontrávamos pela manhã naquela planta de folhas grandes, naqueles tempos em que chovia colorido. Ela, nestes momentos, era a mais pura expressão da lembrança. Aquela que é doce e leve, mas que chega longe e dá uma saudadezinha.
Ela era firme.
Sua postura não denunciava, mas ela era firme. Sua rigidez em certos momentos vinha como que para torturar os mais flexíveis. Sua delicadeza podia inexplicavelmente sumir sem deixar rastros nos momentos de fúria. Parecia frágil, mas possuía uma força incomum. Física, inclusive.
Não esperava que esperassem de sua parte demonstrações explosivas de carinho, ou exposições de peque. Este era o lado que ela preferia esconder, principalmente de si mesma. E que jamais admitia. Porque ela tinha uma característica absolutamente pessoal: Só falava a verdade. Ainda que fosse uma verdade controlada, calculadamente pensada para que não se adentrasse a zona de perigo onde ficar exposto seria inevitável.
Ela possuía um dom. O de insistir até que o mais resistente desistisse.
Este era um dom difícil de se ver assim, aplicado no limite. Não porque fosse incomum, mas porque ao chegar na metade das possíveis demonstrações qualquer expectador já se perceberia exausto.  Ela era incansável.
Uns diriam que esta característica chamava-se persistência, outros mera teimosia, eu, em alguns momentos, poderia afirmar que era chatice pura, só pra testar os meus limites, porque de teimosia em teimosia eu e ela poderíamos travar a mais longa batalha do universo.
Mas, no fundo, eu achava bonito, porque isso a tornava tão admirável aos meus olhos... No fundo -que ela não saiba-, mas eu sabia que ela era uma das únicas que me venceria caso travássemos o duelo da resistência, embora - afastando minha tão característica modéstia- não sem nenhum arranhão...
Ela era de libra, mas não acreditava nestas coisas. Ainda assim, os astros provavelmente explicariam sua indecisão constante quando a decisão a tomar envolvia a demonstração de seus sentimentos. Ela vivia na busca interna  e constante de se revelar sem se expor.
Ela era grande.
Mas sua altura era nada perto da sua grandeza de caráter. E de sua grandeza de esperança. E do tamanho dos seus sonhos.
Ela era sonhadora. E não precisava ter os pés no chão. Não podia mesmo ter os pés no chão. Esta limitação seria penosa demais para quem sabia o quão longe poderia ir.
Ela era infinita para quem se deixasse sentir. E isso fazia toda a diferença na vida de quem a guardava no coração.